O Ateu e a Ayahuasca

*Por Ulisses Lopes da Silva Quando o efeito do chá pegou pra valer foi só na minha segunda dose, que sentia o corpo ser tomado por um formigamento depois torpor lento, como se estivesse deitado na praia e a maré do mar, morna, fosse subindo e me cobrindo. Desse ponto em diante, comecei a lembrar de muitos nomes e rostos que havia esquecido há décadas, conhecidos da escola, de empregos antigos, nome de programas de TV, histórias antigas de quadrinho, filmes, cenas de viagens sem graça, com ose as travas da memória estivessem abertas e o cérebro trabalhando a mil. Depois do período de inundação de lembranças veio a parte da auto-análise, o mais temido do processo de auto-conhecimento. Muitas pessoas têm medo de se conhecerem, certamente por temerem se depreciar e o trauma ser tamanho que não consigam se reerguer da própria tristeza ou terem a coragem de tomarem jeito, por isso muitas pessoas fúteis preferem a multidão barulhenta e evitam ficarem sozinhas, na companhia de si mesmo. Falta de auto-estima deveria ser considerado doença psicológica, mas de qualquer forma, nenhum paciente psiquiátrico é permitido experimentar a Ayahuasca. Lembro de ter pensado muito sobre mim, sobre meus amigos, mãe, namorada, até lembrei da morte do Antônio Abujamra (ai de mim!) e o inusitado virou comum: estava chorando como uma criança, pensava sobre soluções sociais para o futuro do Brasil, a importância dos autores de obras artísticas, porque existem pessoas que fazem ruindades e no final projetei uma imagem de eu mesmo apertando minha mão e afirmando com a cabeça em um cumprimento de “você está indo bem”. Claro que a experiência de cada um corresponde à sua crença esotérica e a minha, na ausência de uma, foi racional e auto-analítica focando nas minhas opiniões sobre eu mesmo, sem espaço para me enganar. depois de 6 horas que pareceram passar em 30 minutos, o ritual terminou e diferente dos outros não consegui dormir, fiquei palestrando com que acordasse para comer algo da mesa comunitária e a experiência de cada um foi muito interessante e percebi que apesar da motivação inicial o resultado foi além do religioso, as pessoas de diferentes classes sociais se igualavam diante da refeição compartilhada contando seus problemas pessoais e, diferente de reclamar, analisavam as causas e já haviam uma resposta. Não haviam resmungos sobre a vida, só novas noções de interpretação para os problemas recorrentes e comuns a todos. Certamente estes saíram do pensamento condicionado que o senso comum aprisionava e passaram a perceber que eles são a fonte autoral de soluções inteligentes, não precisam depender dos outros. Eles descobriram sua intelectualidade. De vez em quando o gosto do chá ainda vem de volta à boca e velhos pensamentos retornam, como um lembrete biológico para ser ético com minhas resoluções daquele dia. Fonte: https://medium.com/@Ulissan/o-ateu-e-a-ayahuasca-38e2fc1a1696

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